Canhoto. Esquerdo. Gauche. Zurdo. Manco. Esquisito. Desde que me entendo por gente, a idéia de “handedness” ou lateralidade dominante do corpo nunca foi muito explorada além das velhas carteiras “pra canhoto” (que, aliás, eram piores que as destras).
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| Vamos lá turma, soletrando: E-S-C-O-L-I-O-S-E |
Digo porque além das implicações práticas que a questão suscita (qual lado do campo você vai jogar, se você vai precisar inverter as cordas da viola ou quão ruim vai ser sua meia lua + frente + soco em jogos de luta) não há realmente uma observação mais apurada do ponto principal – e diferencial – da dita “sinistreza”:
o ponto de vista.
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Meias luas fazem toda a diferença:
especialmente em shoryukens flamejantes. |
É questão pacífica que, embora o cérebro seja um todo holístico e etc. (insira aqui seu pseudojargão psicológico de preferência), há uma tendência em cada hemisfério: a grosso modo, o esquerdo é o certinho, matemático e prático, enquanto o direito é o viajante, colorido, psicodélico e artístico. E, mais interessante ainda, cada um desses hemisférios “rege” por assim dizer sua lateralidade dominante, de maneira cruzada: pessoas com orientação destra são regidas pelo lado esquerdo (racional) do cérebro, enquanto que os canhotos são regidos pelo lado direito (intuitivo). Quanto aos ambidestros, velho, eu quero que eles se fodam. (menos o Leo DaVinci: o que o Dan Brown fez com ele já foi suficiente)
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| Bubbaaaaaa! |
Óbvio que em uma sociedade evoluída, ninguém mais é motivo de preconceito por ser canhoto (de novo, exceto em jogos de luta). Há o reconhecimento de que existe uma parcela considerável da nossa sociedade que usa o lápis com a mão “errada” e que isso deve ser respeitado, para terror das suas vovós e bisavós. Meu avô, por exemplo, é canhoto e teve que aprender a escrever com a direita, porque a mãe dele (grande bisa!) achava que o uso da caneta com a mão esquerda levava ao inferno. Ou era feio, algo assim.
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Obviamente era de suma importância
para a honrada família você dar
a mão correta à palmatória. |
Enfim, a dúvida permanece: qual a influência que a lateralidade canhota exerce sobre a pessoa? Embora essencialmente a diferença seja pouca, qualquer canhoto sabe que o nosso mundinho ocidental não foi feito pra nós: trânsito pela direita, caixa de marcha à direita, até a própria noção de correto está atrelada a uma lateralidade que não é a nossa. Puxa, chato certo? Somado à uma “sensibilidade artística” mais acentuada e um suave desespero por se achar errado desde nascença (sério, eu sei que vocês pensam isso) os canhotos passam por vários mini-percalços em razão de sua condição.
Mas o que não se vê é que essa situação “sinistra” (sério, parei) é uma verdadeira blessing in disguise: a canhotice, longe de ser uma maldição, é um estado de percepção diferente das coisas. E o quanto isso influencia na nossa forma de ver e reagir ao mundo? É isso que vamos explorar nessa coluna semi-auto-pré-biográfica: esmiuçar a “sordesa”, suas implicações na forma que fazemos as coisas e como isso mexe com nossa visão de mundo. Assim, vejamos as coisas pela ótica de...
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| Agora, criançada, com vigor: P-A-I-N-T-B-R-U-S-H |
Primeiro, temos que falar do local onde essas diferenças mais se acentuam: a escola. Em que pese meu
hadouken pra esquerda ser um lixo (assim como o “
trak trak trúguen” pra direita), até que se chegue na escola, ser canhoto é mais um ponto pitoresco na convivência do lar do que um estorvo em si
. Em casa, não importa com que mão você pintou a parede toda: você vai apanhar do mesmo jeito.
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| ÔTI NENÊM! Cadê o Nenêm do papai? Cadê o cinturão do papai? TÁ ATÍ!!! |
Só que ao chegar no colégio, meu amigo, a jiripoca pia: ao ser confrontado com uma série de coleguinhas no jardim de infância, você instintivamente percebe que todos olham atravessado pra você; uns com espanto por não entenderem porque você está pegando o giz de cera com a mão errada; a professora com condescendência e preocupação, imaginando se vai ter problemas com isso e aquele menino do canto te olha atravessado porque ele é estrábico mesmo.
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| Melhor do que a porca torcendo o rabo! |
Apesar das carteiras serem essencialmente mesinhas (imagine colar feijões em desenhos de cola numa carteira de braço?) ainda assim você percebe que o trem não anda bem. Apesar de variar de canhoto pra canhoto, geralmente a experiência de escrever é no mínimo “pitoresca”. Como nossa escrita é da esquerda pra direita, naturalmente os destros escrevem deixando um “rastro” de escrita, deslizando a mãozinha feito uma graciosa gazela cintilando pelos prados.
Já o canhoto, ao escrever, tem que empurrar o lápis pra frente e a cada 4 letras (5 para os de mão grande, 3 pra quem tem dedos de hobbit como eu, 2 se tiver “L” ou “H” maiúsculo envolvido. Sério, que porra é com essas letras?), bem como tem que mover a mão para cima do texto para poder escrever mais. Isso tem dois efeitos: primeiro, câimbra e LER a longo prazo; segundo, faz com que todo texto escrito em material que não seja grafite saia todo borrado, graças ao deslizar do lado da mão. Especialmente com canetas.
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| FREEEEEEEESSSCOOOO- |
Imagino até que em épocas passadas, escrever com a canhota poderia ser perigoso para sua vida: as tintas originalmente continham traços de metais pesados (um toque de slayer para vermelho, um de metallica para preto e meio de iron maiden se fosse azul), de modo que o contato prolongado com a pele da mão (pelo borrar constante) fatalmente inocularia o escriba e o levaria à morte. Certamente, nessa época era melhor ser analfabeto!
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Mal sabe ele que vai melar a
cueca no FAP maroto mais tarde |
Hoje em dia, você sabe a quantidade de laudas que um canhoto escreve na faculdade apenas pelo tamanho do borrão no lado da mão: Sujeira leve indica no máximo 2 páginas escritas; média, uma prova extensa ou com bastante cálculo; uma mancha enorme de tinta indica que a caneta estourou e o José Ruela não percebeu porque provavelmente estava colando.
Enfim, além de deixar uma cagada enorme na folha pela força com que escreve, nosso método de escrita, que consiste no estupro mal articulado do papel, faz a letra sair toda desconjuntada. Especialmente porque devido à força aplicada ou falta de jeito do método, a folha, se não estiver firmemente atrelada a um caderno (e no maternal NUNCA estava) tenderá sempre a subir, descer ou simplesmente se amassar sozinha em frustração (hum, celulooooose). Esse bichismo papélico força você a “corrigir o curso”, já desengonçado, tal qual um bêbado mirando uma chave num cadeado, a 160km/h, no espaço. Longe de ser o balé da gazelinha destra, a experiência de escrever do canhoto se assemelha mais à corrida trôpega de elefantes chapados de marula em busca de sexo.
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| Representação gráfica da última vez que escrevi "Higienização" em letra cursiva. O "h" maiúsculo passa bem... |
Por esta razão muitos acabam fazendo anos de caderno de caligrafia (eu parei quando saí de casa, mas mesmo assim minha mãe ainda manda 1 caderno pelo correio todo ano) e, eventualmente, acabam largando a escrita cursiva em prol da letra de fôrma. Ou, você sabe, um teclado de computador mesmo.
Palavras relacionadas: Canhoto; zurdo; izquierdo; elefante; marula; amarula; bêbado; mão esquerda; manco; palmatória; paintbrush; jiripoca; luva; farol; capacete; rua;